A tristeza dos jumentinhos

Um dia eles foram peça fundamental e marcante em meio ao cenário acinzentado da caatinga. Viveram épocas de imponência ao lado do então fiel e amigo companheiro homem do campo. Por onde se andava logo se avistava alguém vindo ou indo montado no bichinho. Usavam o desajeitado animal para diversas atividades: carregar pesados feixes de lenha, transportar impiedosos barris d’água, puxar arado durante plantações, enfim, além de obediente, o simpático orelhudo ainda era multiuso.

 A figura do jumento constitui um dos simbolismos mais atrelados à região Nordeste do Brasil. Para o homem do campo a presença desse animal no seu dia a dia sempre foi imprescindível. O transporte escolar de muitas crianças do interior era ele. Até para ir um forró o bicho era veículo oficial de muitos. Nas feiras das pequenas cidades era cena comum ver as árvores urbanas ficarem abarrotadas de jegues amarrados, esperando pacientemente os seus donos fazerem a feira para seguirem viajem.

 Mas o destino foi duro com os jumentinhos, e como foi... Hoje eles perderam a majestade de outrora, vivem a margem da sociedade, desprezados por quem tanto se utilizou deles. Cá pra nós, como o homem está sendo ingrato com eles! Em tempos de avanço tecnológico e de êxodo rural quase ninguém mais liga para os pobres quadrúpedes. Aqui acolá ainda nos deparamos com algum remanescente sertanejo que usa o animal como meio de transporte ou para algum serviço da roça, mas longe de ser como antes, bem longe.

 A grande vilã dos jumentos do sertão tem nome: motocicleta. A melhora no poder aquisitivo da população, notadamente na última década, impulsionou a compra do veículo motorizado pelos sertanejos e contribuiu decisivamente no processo de esquecimento dos jegues. Em quase toda casa do interior tem uma moto, assim a utilidade do famoso jumento foi diminuindo, chegando até a situação atual. Agora para toda “bimboca” que se pretende ir, o transporte tem que ser a tal da moto.

 

Os jegues perderam tanto prestígio que a grande maioria vive solta no meio do mato, abandonada, ninguém quer ser dono. Se os bichinhos falassem com certeza diriam: “Homens ingratos, cuspiram no prato que comeram!”. Os coitados vivem por aí, na beira das estradas vendo muitos de seus ex-donos passarem enviesados numa moto, sem sequer dar uma buzinada para eles.

 É como se o sertão tivesse perdendo uma das marcas principais de sua identidade, a cena do sertanejo montado num jumentinho. O lado bom é que isso é derivado do desenvolvimento e do avanço que a região passou e ainda vem passando. O jumento presenciou muitas vezes o drama das dificuldades vividas por aquela gente, auxiliando os rurícolas na labuta diária. O animal foi, durante todo esse tempo, uma espécie de braço direito do catingueiro.

 Mesmo lamentando profundamente o abandono do tradicional jegue, é preciso ressaltar que eles ficaram livres, pelo menos não precisam mais carregar peso sobre suas colunas vertebrais, não levam mais chicotadas, nem são cutucados por esporas de ferro. Se o homem do sertão agora anda sobre duas rodas, o asno não é mais burro de carga. Pelo menos isso para amenizar a dor no coração dos bichinhos. Não fiquem tristes não jumentos, deixem o homem fazer as coisas sozinho, inclusive suas jumentices.

  

Gustavo Almeida

Acadêmico de Jornalismo - UFPI

  

 

  

      

São Raimundo Nonato - PI, 22/10/11

MSN: nota10guga@hotmail.com  
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