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Escritor faz homenagem a Dom Inocêncio López Santamaría e
ao Ex-Prefeito Bitoso Silva
Dom Inocêncio López Santamaría
Lembranças
do homem, do Bispo, do porta-voz da região, do representante, do
emancipador. Sua Santidade foi nosso principal compromisso estético
(maneira de se comportar) e nosso senso psicológico (maneira de pensar).

Breve
histórico:
Em 18 de junho de 1920, o Papa
Bento XV, por intercessão do Mestre Geral da Ordem Mercedária,
Padre Inocêncio López Santamaría, criou a Prelazia de Bom Jesus do
Gurgueia-PI (hoje Diocese), pela Bula “Eclesiae Universae”. O
primeiro prelado (administrador da Prelazia) nomeado foi o Padre Pedro
Pascoal Miguel Martinez. Depois o Padre Mariano Ferrer. Em
seguida, o Padre Ramon Harrison e Padre Pedro Sanchez Martinez
Veras. Depois disso, no dia 1º de agosto de 1930 foi eleito para Bispo
Titular de Trebento, para a Prelazia de Bom Jesus do Gurgueia-PI, Padre
Inocêncio López Santamaría, Mestre Geral da Ordem Mercedária. Recebeu
a Ordem Episcopal no mosteiro de Poyo, Espanha. Paralelo a isso, em 29 de
junho de 1922 fora criada a sede provisória da Prelazia de São Raimundo
Nonato-PI. Um empenho de Dom José Dias Vasquez, e criada pelo Papa
Bento XV, pela Bula “Eclesiae Universae”. Mais tarde, em 18
de fevereiro de 1931, Dom Inocêncio López Santamaría foi nomeado
Bispo-Prelado da Prelazia de São Raimundo Nonato-PI. Somente em 17 de
setembro de 1960 é que foi criada a Prelazia (definitiva) daquele
município, pelo Papa João XXIII. Foi elevada de Prelazia à Diocese
em 28 de outubro de 1981, pelo Papa João Paulo II. Foi nomeado Dom
Cândido Lorenzo Gonzalez como bispo residencial da mesma.
“Dom Inocêncio López Santamaría,
nasceu em Sovellanos (Burgos) – Espanha em 28 de dezembro de 1874.
Procedia da família mais pobre daquele povoado. Até os 15 (quinze) anos
foi pastor e peão braçal. Entrou na Ordem dos Mercedários, que se tornou
Ministro Geral. Foi nomeado Bispo de uma região atrasadíssima do Nordeste
e grande figura do episcopado brasileiro. Trocou todas as mordomias
religiosas das instituições romanas pelas selas duras e as secas
impiedosas do sertão piauiense. Aí durante quase 30 (trinta anos), numa
austera pobreza, ele desenvolveu um trabalho humano e religioso que vale a
pena recordá-lo. A Ordem Mercedária (da qual foi Mestre Geral), a Igreja
(da qual foi Bispo) e o povo da Diocese de Bom Jesus (do qual foi Pastor)
não o esqueceu jamais e celebram sempre sua memória como um gratificante
dom de Deus. Lêem sua vida como a reedição de um belo romance da fé, do
amor e da doação; e o seu trabalho apostólico naquela região, como uma
epopéia do amor humilde e da entrega sem reservas. Durante 28 (vinte e
oito anos) no Piauí, Dom Inocêncio realizou um duro e austero trabalho
religioso, social e cultural: inspirou e deu forma a institutos
religiosos, criou escolas e mandou abrir estradas, mas sobretudo
administrou, com heróico grau de santidade, sua ação evangelizadora
naquela imensa e atrasada região. Sempre disposto, com entusiasmo
contagiante, pregava, celebrava, escrevia, ensinava e administrava tanta
sorte de serviços. Nunca estava ocupado demais para cuidar de detalhes que
considerava essenciais, como visitar os presos e os doentes, catequizar as
crianças, falar aos jovens. Preocupava-se com a saúde espiritual, moral e
física de cada pessoa. E mais: tinha sempre um sorriso para cada um que
dele se acercava, uma palavra de conforto para cada dor, de encorajamento
para todos. Apesar de trabalho numa das regiões mais pobres da Terra,
nunca deixou de acreditar naquele povo que ele amava com o coração de pai
e ao qual ele sempre se antecipava na busca de soluções para todos os
grandes problemas que afligiam a região”.
(Revista Mercê).
Chegou à região em 18 de
fevereiro de 1931. Sua vinda foi um marco para a região, pois depois da
sua presença, nosso lugar passou a ter voz social e uma “cara” oficial. É
preciso se dizer: Dom Inocêncio foi quem moldou nossa região para o
caminho da emancipação, e combateu incansavelmente a exploração. Teve um
decisivo papel na vida intelectual e social da região, também na educação
de um povo. Sua caminhada começa com o desejo de promover a tão necessária
justiça social às pessoas, e emancipar as comunidades. Isso lhe
possibilitou conhecer, primeiro, o então prefeito de São Raimundo
Nonato-PI, Francisco Antônio da
Silva, conhecido
popularmente como Bitoso Silva. Entre os dois nasce uma amizade,
uma parceria, uma cooperação. Bitoso Silva é pai do Antônio
Macedo, muito conhecido na região.

(Estrada para Caracol-PI.
Prefeito Bitoso Silva acompanha a obra.
Dom Inocêncio ajudou a
angariar recursos para a construção)

(Estrada para São João do
Piauí-PI. Prefeito Bitoso Silva acompanha a obra.
Dom Inocêncio ajudou a
angariar recursos para a construção)
A iniciação do seu trabalho,
notadamente na minha terra (hoje município de Dom Inocêncio-PI) acontece
em 1932, com o apoio financeiro do fazendeiro Antônio Martins Gomes
(1870-1946), de quem se torna amigo. Isso intermediado por meu bisavô
João Rodrigues Damasceno (1890-1968) e Júlio Dias da Silva
(1896-1963). Hoje o nome de Dom Inocêncio se mantém incontornável
para a emancipação da região. Sua Santidade marcou profundamente a
vida da nossa gente e a história da minha terra.
Dom
Inocêncio que fez parte do dia a dia das pessoas. Foi um ser humano
e um Bispo simples, solidário e servidor. Serviu a Deus e ao povo.
Interferiu na solução dos problemas regionais, moldou a região, e mostrou
a necessidade de se romper com um sistema arcaico e elitista, e se adotar
uma forma de convivência com igualdade, liberdade e fraternidade. Sua vida
foi moldada no trato diário com a causa coletiva. É bom lembrar a sua
inestimável importância para o aperfeiçoamento e fortalecimento da cultura
e educação da região, sua identidade regionalista, seu espírito
coletivista, seu altruísmo, seu profundo conhecimento sobre o contexto
social regional, sua participação marcada pela sua integração às batalhas
populares. Ligado à causa social, e religiosa, gostava de ser identificado
como um Mestre, o mais legítimo e o mais compromissado. De uma forma tal
que, era um líder religioso respeitado entre todos, independente de
ideologia, de linha de pensamento. Isso era unanimidade. Era um detabedor
experimentado, debatia os assuntos socioeconômicos e culturais da nossa
região com propriedade. Sua maneira de defender o processo de
desenvolvimento para a região era singular, com forte instinto de educador
e de regionalismo, de um eterno sonhador e incansável lutador para tornar
a região numa terra mais desenvolvida, mais justa e mais feliz.

Charge: Dom Inocêncio, na
sua cadeira
De: Maurício Lima (São
Raimundo Nonato-PI)
Meu
bisavô João Damasceno foi nomeado ‘juiz de Direito’ na região em
1942, pelo presidente Getúlio Vargas e pelo governador Leônidas
de Castro Melo, e juntamente com o Bispo Dom Inocêncio, nos
anos 50, então Bispo da Prelazia de São Raimundo Nonato-PI, idealizou
trabalhos importantíssimos para a região. Consolidaram todas as
comunidades da região, demarcaram terras, construíram estradas, reservas
hídricas, registraram pessoas, registraram terras, construíram os
primeiros pólos comerciais da região, fizeram a primeira reforma agrária
do Piauí. Mas o que mais marcou foi a idealização da ‘Campanha Liberdade e
Propriedade’. Havia muitos conflitos de terras. Dom Inocêncio
justificou: “Não haverá liberdade se apenas um
for colonizado em seu próprio território. A propriedade deve
ser um direito de todos”. Vale salientar que registraram todas as
terras e todas as pessoas da região. Promoveram o estado de dignidade à
nossa gente e organizaram politicamente nossa terra.

Meu avô Joaquim Damasceno
(1925) conta-me que quando Sua Santidade adoeceu e teve que ser
levado para Salvador - BA, no início do ano de 1958, o povo chorou, como
que estivesse adivinhando que não voltaria vivo. E quando foi anunciada
sua morte, o povo ficou de plantão na frente da Igreja Matriz, exigindo
que fosse trazido para São Raimundo Nonato-PI, e não, levado para Espanha.
Era muito querido. Dom Inocêncio gostava tanto da nossa terra, que
antes de morrer pediu, é sabido disso, para ser levado para São Raimundo
Nonato-PI e ser sepultado lá. Meu avô foi ao seu sepulto juntamente com
meu bisavô João Damasceno. Morreu o Mestre, pai, líder, porta-voz
do povo.

Morreu
aos 81 anos de idade, em 09 de março de 1958, em Salvador – BA, e está
sepultado na Catedral de São Raimundo Nonato - PI. Conta-me sempre, meu
avô Joaquim Damasceno (1925) que à hora da morte, segurando a mão
do médico deixou-nos esta mensagem: “A educação oportuniza as
pessoas a trilhar por um bom caminho, a construir seu próprio caminho, seu
próprio futuro, sua própria história. Ela abre uma série de oportunidades.
Seu principal objetivo é fornecer as condições de saber, autonomia e
independência para as pessoas. Todos devem estudar. Mas estudar para a
vida.” Seu corpo chegou à cidade de São Raimundo Nonato-PI no dia
14 de março de 1958, sendo aguardado por uma multidão. A emoção e a
tristeza tomaram conta de todos os presentes.

Dom Inocêncio
será sempre lembrado a cada conquista na região. Isso aproxima-nos mais
dele. Gostaria de lembrar o desejo do meu bisavô, em 1966, no projeto de
emancipação do nosso município (Dom Inocêncio-PI), em homenagear um amigo,
um guerreiro, um visionário, um líder, um homem que foi importante para o
desenvolvimento da região. É preciso se dizer da participação do seu
discípulo: Pe. Manuel Lira Parente (1919), como também, do João
Rodrigues – Janjão (1913-1998). Dom Inocêncio faleceu em 1958 e
meu bisavô, em 1968. Mas o seu desejo foi atendido. Em 1988 foi emancipado
o município de Dom Inocêncio – PI, capitaneado por Pe. Lira, tendo
meu tio Marinho Rodrigues Damasceno (1949) como participante.
Grande
parte da história regional se confunde com a história desse líder
combativo e humanista, desse educador de uma importância significativa na
melhoria da região. Essa visitação à História é uma forma de celebrarmos a
sua memória, que a cada dia mais falta faz, pelos exemplos de compromisso
com a região, pela dedicação e pelo sentido ético e de honestidade que
dava a cada passo de sua vida. Dom Inocêncio será sempre apreciado
por suas qualidades de mente e de coração. Por sua sensibilidade pastoral
e inesgotável caridade para com a sociedade. Trata-se de um homem
especial, que buscou a paz, que promoveu o amor, e que tornou a nossa
terra mais feliz, mais digna, mais confortável, mais fraterna e mais
desenvolvida.

Atrevo-me a dizer que nunca mais existirá um
ser humano da grandeza de Dom Inocêncio na nossa terra. Sua
Santidade fez parte de uma geração que se agigantou diante de uma
realidade cruel. Geração de homens como: Bitoso Silva, Antônio
Martins, João Damasceno, Júlio Dias, Benedito Marques,
Cel. José Dias, profº João Menezes, profº Leandro,
dentre outros. E Dom Inocêncio foi o profeta dessa geração. E sua
história é resultado da sua luta, das suas ações, das suas realizações, do
seu trabalho. É a força de tudo isso, a força da sua história.
Dom Inocêncio
estará vivo eternamente na memória do povo. Sua Santidade é digno
da nossa admiração, respeito, reconhecimento e celebração. Sempre!
Marcos Damasceno,
escritor, doutorando em Filosofia Política.
Dom Inocêncio-PI, março de 2010.
Fonte: Redação |
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