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Dois anos sem o Mestre da Sanfona da Microrregião de São Raimundo Nonato-PI. Gilberto Dias Danado de Bom.

 

Saudades de Gilberto Dias

(Gilberto Dias)

No dia 04 de setembro próximo, completa 2 anos da morte de GILBERTO DIAS, ‘O Sanfoneiro Danado de Bom’. Isso provoca sérias reflexões em todos nós (familiares, amigos e fãs). Reflexões da importância que ele teve para a musicalidade regional (e nacional – sua carreira musical teve dimensão nacional), sua consagração, respeito adquirido, e a falta que ele faz nos dias de hoje. Reflexões da sua amizade para com todos nós. É sempre lembrado por todos, em várias situações e ocasiões.

GILBERTO DIAS nasceu na localidade Cágados, município de São Raimundo Nonato-PI (hoje Dom Inocêncio-PI). Desde criança já despontava seu gosto pela música. Quando ia botar os bodes da serra, montado em jumento, juntamente com seu irmão Gilbem, dizia: “Maninho, vamos cantar igual aos homens do rádio.” Os homens do rádio eram Tonico e Tinoco, Chitãozinho e Xororó enfim, duplas sertanejas que, na época, dominavam a programação do rádio em todo o Brasil.

Em 1976, morava em São Raimundo Nonato – PI. E teve a apresentação, em praça pública, do antigo ‘Trio Nordestino’. Tinha uma multidão presente. Foi então, lançado um desafio: quem cantasse uma música do grupo, ganharia prêmios. De repente, surge um menino. Era GILBERTO DIAS. E detonou todo o repertório. Era a força do rádio e do talento de alguém que já nasceu com a música na sua vocação. Foi tão aplaudido que se assustou, e saiu correndo pra casa. O susto de criança. Tinha saído escondido dos pais só pra ver o ‘Trio Nordestino’. Fala-se que seus olhos brilhavam ao olhar pra sanfona. Ali nascia uma inspiração para o maior sanfoneiro que o Piauí já teve.

Em 1981, festa na localidade Barra das Queimadas, hoje comunidade do município de Dom Inocêncio – PI. Foi quando o sanfoneiro Raimundo do Mundico, seu mestre, que estava tocando a festa, anunciou: “Quem vai tocar agora é um pequeno sanfoneiro. Pequeno no tamanho, mas grande no talento. Vocês vão ver, ele vai levantar poeira neste salão.” O pequeno sanfoneiro era GILBERTO DIAS. A sanfona era maior do que ele. Pra tocar era preciso o apoio de uma cadeira. De início, já tocou a ‘Galopeira’, uma música consagrada no repertório caipira, e de difícil arranjo musical. Imagine um menino do interior já tocar. Isso tem uma explicação: é a força da vocação. Ainda puxou todo o repertório de Luiz Gonzaga. A festa foi até o sol alto, como se diz no linguajar interiorano. Era o início de uma carreira de sucesso.

 

(Gilberto Dias e o mestre Raimundo do Mundico)

GILBERTO DIAS tinha outro dom, além de sanfoneiro: contador de histórias, estórias, causos, piadas etc. Era alegre e brincalhão. Igual ao Luiz Gonzaga. Por isso, sempre digo que ele era uma personalidade da nossa cultura. Lembro desde criança que nos nossos encontros fazíamos uma roda de conversa. Disparava um mentireiro. Mas mentiras boas, sem maldade. Ele gostava de conversar com as pessoas. A lembrança das nossas conversas, e viagens, permanece na nossa memória. Nossa iniciativa em escrever algo sobre ele tem origem na saudade de um fã, familiar e amigo. Penso que ele é lembrado como sinônimo de amizade, liberdade, autoconfiança, coragem, garra e representatividade regional. Isso porque, na sua trajetória artística, tornou-se um embaixador da musicalidade regional, juntamente com Tita Veiga, Waldemar do Olício e tantos outros. Foi importante para a promoção da cultura local. Ele deu visibilidade a isso. GILBERTO DIAS cantava nossos valores, sentimentos, alegrias, tristezas, costumes e anseios. Assim, tornou-se um símbolo.

 

Certa vez Nelson Rodrigues disse: Existe uma grande diferença entre seguir um caminho e abrir um.” A responsabilidade de ser a referência. O peso disso é enorme. E GILBERTO DIAS sempre que conversava comigo lamentava: “Marcos, eu carrego um peso muito grande, não posso com ele.” E eu insistia: “A sabedoria popular diz que Deus não dá um fardo maior que nossa capacidade.” E foi com sua luta, e seu protagonismo, que abriu portas para tantos outros músicos, foi quem carregou o peso das dificuldades para buscar o espaço necessário para musicalidade da nossa terra. Mas isso teve um preço: sofreu todas as etapas de dificuldades até o auge do sucesso. Dias agonizantes, humilhações, intemperanças, fracassos, incertezas, problemas. Mas, passando por tudo isso, tornou-se num dos maiores sanfoneiros do Brasil. O astro do forró da nossa terra. Lembrar GILBERTO DIAS é nos reconhecermos enquanto povo e lugar. Sua personalidade é uma referência de sucesso na nossa terra. Sua história de vida é um magistério para aqueles que lutam na vida em busca de um sonho. E passar por onde ele passou, suportar o que ele suportou, enfrentar o que ele enfrentou, viver o que ele viveu, construir o que ele construiu, não é pra qualquer pessoa. Nem todos conseguem, pois é um caminho difícil que requer características raras para tal embate. A receita veio de Dominguinhos: “Humildade, humildade e humildade.”  

 

Fica eternizado o respeito pela sua história. História de suor, luta, sofrimento, humilhação, decepção, aflição, constrangimento, dificuldade. Mas acima de tudo, uma história de êxito, que abriu portas e possibilidades. É o preço que se paga por ser bom, por ser a referência, e por lutar por um sonho. Um sonho não somente pessoal (o GILBERTO DIAS nunca foi individualista nem egoísta), mas o sonho de ver a nossa música sendo divulgada e respeitada.  Ele pagou o preço (e alto), mas foi quem desbravou esse caminho. Foi quem “carregou a cruz”. Sempre viveu sua vida com grandeza. Sempre que estava sem shows agendados, ia visitar os amigos. Tinha consideração por todos. Uma vez me contou a sua gratidão pelo músico Edcarlos Dias, de Dom Inocêncio-PI, outro gigante da nossa música, o primeiro a fazer parcerias com ele. E seu grande amigo.

 

Durante sua existência, demonstrou amor a sua terra, à família e aos amigos. A dor da sua perda permanece viva na mente e no coração das pessoas. Sanfoneiro de mão cheia. Diga-se de passagem, um dos melhores do Brasil. Tinha sempre uma preocupação com os detalhes, com a perfeição. Sempre obstinado pela profissão. Gizelda (sua esposa) era o seu bom conselho, a pessoa que lhe dava sustentação nos bons e maus momentos. Déborah e Maryane (suas filhas) eram seus xodós.

 

A relação entre GILBERTO DIAS e o povo é simbólica. É fruto da memória popular. Ele sempre esteve, e estará eternamente, na memória do povo. Assim dizia Sérgio Buarque de Holanda, escritor: “A memória popular é uma construção social que pode ser continuamente elaborada e reformulada, mas jamais esquecida. Isso porque ela vem de uma relação intrínseca com a produção de um tempo ou de uma história.” E na construção de sua história, GILBERTO DIAS foi um homem que lutou pela instituição da cultura popular local no cenário nacional, por meio do forró. E assim, fazer com que tivesse respeito e respaldo. Além do mais, foi um discípulo fiel do rei Luiz Gonzaga. Um autêntico sanfoneiro da bandeira do forró pé de serra.

Na nossa terra (Dom Inocêncio – PI), nos últimos 25 anos, já era tradição, em época de São João, a presença dele. Quando começava a tocar, a emoção e a empolgação tomavam de conta. “A poeira cobria e o forró comia por conta”, um bordão popular. Era até o dia amanhecer, sem parar. Era uma alegria enorme. Fazia parte dessa festa. Tanto que se tornou patrimônio do São João de vários municípios nordestinos. Sua presença já era certa. E esperada por toda a população. O povo gostava muito dele. O povo chamava pelo ‘Sanfoneiro Danado de Bom’. Quando GILBERTO DIAS começava a tocar, botava o chão pra tremer. E tinha uma particularidade: quando terminava o show, descia do palco e vinha pro meio do povo. Era amigo de todos. Era povão. Posso testemunhar: raras vezes vi alguém tão à vontade em meio ao seu povo. Era um valor artístico, e humano, que tinha. O sentimento que une GILBERTO DIAS ao povo é tão espontâneo e consolidado, que ultrapassa as motivações musicais.

 

 

GILBERTO DIAS sempre foi um defensor incansável da música, como oportunidade para muitos. Sempre preocupado e compromissado com isso. Existe uma bandeira patronada por ele, de se trabalhar a música como oportunidade para as pessoas. E nessa empreitada, enfrentou as dificuldades da vida e os obstáculos do mundo musical. Mostrou sua capacidade, desafiando barreiras e concretizando suas ações, seus planos, seus objetivos, seus sonhos. Ousou quebrar paradigmas, e mostrou o valor da nossa terra e da nossa gente. E diante disso, foi um oportunizador. Tinha uma atenção para com todos os músicos, notadamente às crianças, que gostava de incentivar, tinha um carinho especial por elas. E dizia: “As crianças devem ser incentivadas, para que a chama do forró não se apagar.” Partindo daquele pressuposto de que cada pessoa é um universo, com caminho e maneira de caminhar diferentes, ele estava certo. Gostava de dizer: “Ninguém ensina ninguém, sem que haja uma vontade de aprender por parte do aprendiz.”

 

Uma questão fundamental para se entender a importância da história de GILBERTO DIAS é analisando a forte participação dele no processo de consagração e expansão dos nossos valores musicais regionais, no cenário nacional. Sempre reprovou, e provou isso na prática, o discurso fácil de “terra arrasada”, lugar sem valor humano, cultural, artístico e histórico. As condições impostas pelas dificuldades cotidianas não foram aceitas por ele. Provou o contrário, e o justo: somos uma terra de valor, um povo de valor. E talvez a melhor maneira de se lembrar GILBERTO DIAS, nessa data, seja analisando a sua maior obra: representar bem nossa terra. Essa foi a luta, e o sacrifício, de um herói. Ficamos tristes, porque não vemos tocando o ‘Sanfoneiro Danado de Bom’. O significado disso é comovente. Sofremos todos nós, com a ausência dele. Ao lembrarmo-nos disso, somos tomados pela emoção.

O fato, é que GILBERTO DIAS sempre foi um sanfoneiro orientado para desafios, quebrar paradigmas, desbravar caminhos e consolidar sonhos, ideais e anseios. Chamou pra si a responsabilidade de ajudar a segurar a bandeira do forró pé de serra, algo que para ele era sagrado. O forró era sua vida.

O Céu é que está em festa. GILBERTO DIAS está lá, tocando com Luiz Gonzaga, o rei do Baião. Seu maior ídolo. Antes de ser um grande sanfoneiro, já era admirado por ser um grande ser humano, e um apaixonado pela nossa terra. Gostava das nossas coisas. Aprendi muita coisa com ele. Sua história nos enriquece enquanto região.

 

Nossa terra sem GILBERTO DIAS. Quanta tristeza... Uma tristeza profunda. Ele está vivo na nossa memória. Pela história que construiu, merece nossos aplausos e acolhimentos. Sempre! Saudades de GILBERTO DIAS.

 

Fonte: Redação

 

 
Matéria Publicada em  16/08/2010  08:01h  

Edição: GILVAN SANTOS

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