|
História do Pau de Colher/Os Caceteiros com os descreveres do Escritor
Marcos Damasceno e a Professora Vasti Oliveira.
Pois bem Ângela, vamos lá.
Por muito tempo pouco se falou em pau de colher, agora faz-se necessário
a construção dessa história que foi tão importante para nossa região. Mas
para que possamos produzir essa história é necessário utilizarmos as
memórias. Fale sobre a origem do pau de colher?
Marcos Damasceno-meu Tio-Avô Zeca Damasceno (José Rodrigues
damasceno), já falecido, e foi meu professor de conhecimento popular, me
dizia que a história (tradicional) só conta a história dos reis, barões
etc., e fica no anonimato a história dos populares (história popular), de
pessoas comuns na nossa convivência, mas que foram relevantes para a nossa
libertação (num primeiro momento), e para a nossa emancipação (num segundo
momento). Com isso, afirmava que a história popular é a verdadeira e justa
história do povo brasileiro. E nela, passamos a duvidar da história
(tradicional), nos perguntando: "será se isso aconteceu dessa forma? Será se
não foi de maneira diferente?" e nessa empreitada, fazemos justiça pelo
nosso povo, pelos verdadeiros heróis da nossa história. Cito um exemplo: a
batalha do jenipapo, ocorrida no nosso Estado do Piauí. A história
(tradicional) não a cita como um movimento que contribuiu para a
Independência do Brasil. E quando vamos para a história popular, constatamos
que foi relevante, foi o movimento principal. Inclusive, existem
pesquisadores nacionais que afirmam que, verdadeiramente, a independência do
Brasil se deu na batalha do jenipapo. O real enfrentamento (militar e civil)
à coroa portuguesa. O resto dos fatos foi apenas formalidade. Recorrer à
história popular, como faz você Ângela na sua monografia, é levantar
questionamentos necessários para que, de fato e de direito, possamos montar
o "Quebra-Cabeça" da história, e fazer justiça pela nossa terra e nosso
povo.
Quanto à origem do pau de colher, é uma localidade do município de Casa
Nova-BA, aproximadamente 15 km da divisa com o Piauí, especificamente
extrema com o município de Dom Inocêncio-PI, minha terra natal, que na época
(1937-1938) era apenas território do município de São Raimundo Nonato-PI.
"Pau de Colher" está associado à localidade que já tinha esse nome. Na
verdade, o movimento é popularmente conhecido como "Guerra dos Caceteiros".
Isso por usarem como armas, pedaços de paus (Cacetes).
Ao ler sobre o Pau de Colher muitos historiadores fazem menção a
Caldeirão de Severino Tavares e padre Cícero. Existe alguma relação entre o
Caldeirão de Severino Tavares com a Localidade Pau de colher?
Marcos Damasceno-não há nenhuma relação. Isso é uma má informação. O
que ocorre é que nossa história (Nordestina), na maioria dos casos, foi
escrita por historiadores de fora. E isso traz sempre equívocos. Por não
conhecerem o contexto social, e histórico, da região, acabam cometendo erros
e publicando inverdades. Lembro aqui as palavras do meu Tio-Avô Zeca
Damasceno: "A má informação é pior do que a desinformação". É melhor não
sabermos sobre algo ou alguma coisa, do que sabermos de forma errada, como
não aconteceu.
O arraial do Pau de Colher começou quando "Quinzeiro", falso rezador do
ceará, soube da existência de algumas grandes fazendas no interior do Piauí,
extrema com a Bahia. Eram três fazendeiros: Antônio Martins (Localidade
Barra), Mariano Rodrigues de Sousa (localidade Cágados), meu tio, e
Alexandre Oliveira (Localidade Caldeirão), meu Bisavô. Então, Quinzeiro
procurou informações de como chegar até a região dessas fazendas. Vale
salientar, que chamaram atenção, essas fazendas do Piauí, pela quantidade de
bois vendidos para o distrito de Rio Branco, hoje Município de Arcoverde-PE.
Sondou primeiro todas as coordenadas para a execução do plano. Foi então,
que se agradou da localidade pau de colher, pela localização estratégica.
Fez logo amizade com "Sinhorinho", um antigo morador do lugar. Depois, com
"Ângelo Cabaço" e "José Lourenço", outros moradores. Foram os 03 (três)
colaboradores do movimento, os líderes, no arraial. Pessoas do lugar. Tenho
que salientar, pois acho ser relevante, que naquela época dos desmandos no
nordeste (pela opressão do coronelismo político), existiram vários
movimentos sociais, muitos com a proposta de emancipação e alguns com a
proposta de exploração. O Arraial de Pau de Colher teve a proposta de
exploração. Certamente, "Quinzeiro" foi influenciado por algum outro
movimento social na sua região, no estado do ceará. Não pelo Padre Cícero,
pois vejo na sua história uma proposta de emancipação (foi o primeiro
Ecologista do Brasil, a primeira pessoa a implantar o estatuto ambiental, a
criar o pensamento de Planejamento comunitário, a pregar a justiça social
enfim). O “Caldeirão do Severino Tavares” é uma localidade, e não um
movimento. E foi lá um exemplo de organização social, e comunitária,
implantado por Padre Cícero para acolher as pessoas perseguidas pelo
coronelismo político e massacradas pelos dramas sociais.
A comunidade foi liderada pelo Beato José Lourenço, um discípulo de padre
Cícero.
Quais os porquês dos atores sociais terem se deslocado para a localidade
pau de colher?
Marcos Damasceno-da parte do "Quinzeiro", dono do plano de
exploração, foi pela existência de algumas grandes fazendas no interior do
Piauí, extrema com a Bahia. Eram três fazendeiros: Antônio Martins
(Localidade Barra), Mariano Rodrigues de Sousa (localidade cágados), meu
tio, e Alexandre Oliveira (Localidade Caldeirão), Meu Bisavô. Vale
salientar, que chamaram atenção, essas Fazendas do Piauí, pela quantidade de
bois vendidos para o distrito de Rio Branco, hoje Município de Arcoverde-PE.
É bom que se diga que nosso povo, historicamente, teve um notável sentimento
de religiosidade. Isso está bem enraizado na nossa cultura. E traz também
fragilidades, pois muitas pessoas tornam-se presas fáceis de falsa
religiosidade, como foi o caso do arraial do pau de colher. Essa
desinformação por parte de muitas pessoas, é que levam-na a participar de
movimentos assim, notadamente quando se trata de um "ponto de milagres" (da
cura da doença, da alma etc.). Até hoje existem, na "era da informação".
Imagine naquela época, tempo da desinformação. E surgiu, o arraial do pau de
colher como um mercado da fé. Uma religião de fachada. E a ilusão tomou
conta da região (parte da Bahia e do Piauí), por encontrar certa ingenuidade
por parte de muitas pessoas.
Qual a dimensão religiosa desse movimento? Ele se enquadra como sendo um
movimento messiânico como o que ocorreu em canudos?
Marcos Damasceno-dominou mais de 4000 (quatro mil) pessoas. Sim,
classificou-o como um messianismo (crença na vinda, ou no retorno, de um
enviado divino libertador). Agora, quanto ao arraial de canudos não o vejo
como Messiânimo, pois a proposta de Antônio Conselheiro era de emancipação.
Fundou o Arraial como um refúgio para si e seu povo. Apenas quis implantar
uma convivência social de acordo com a necessidade regional (fugir da
arbritariedade política do coronelismo político). O Arraial de Canudos era
um abrigo para as pessoas, igualmente do Caldeirão de Severino Tavares. O
problema, é que o movimento incomodou ao coronelismo político, que recorreu
ao governo federal, que por sua vez, sem conhecer o Brasil direito (nem
sabia onde ficava a Bahia) tomou uma atitude para agradar seus amigos
coronéis, e cometeu um ato que chamo de arrogância administrativa. Que
perseguiu o Antônio conselheiro e destruiu o arraial. A parcela de culpa de
Antônio conselheiro, e que vej0 como positiva, foi convocar o povo a
enfrentar essa arrogância administrativa, e não reconhecer a mensagem
"oficial" do estado brasileiro. Para a época, que não existia lei, ou
melhor, existia, mas era a "lei do coronel rural", vejo a figura do Antônio
conselheiro como a de mais um brasileiro patriótico, assim como tantos. Um
herói da nossa história que foi injustiçado. Em vida, e depois da sua morte,
por historiadores que distorcem a verdade dos fatos. Seus atos para a época
eram ilegais, porém, cívicos e patrióticos. Ajudaram a transformar uma
realidade cruel e injusta, numa realidade mais confortável ao nosso povo.
Houve interferência da Igreja Católica em reação ao movimento?
Marcos Damasceno-houve
sim. O bispo dom Inocêncio López Santamaría (da prelazia de São Raimundo
Nonato-PI) interferiu. Mas foi de forma civilizada, e dentro de uma postura
tolerante, compreensiva e responsável. Colaborou com o estado brasileiro.
Eram as características conhecidas por nós todos, do Bispo Dom Inocêncio.
Ele até ficava preocupado com as pessoas que estavam lá, notadamente com as
crianças. Por várias vezes pediu que não houvesse um massacre por parte da
polícia às pessoas que estavam lá. Era muito humano. E foi ouvido. No
entanto, não teve jeito, acabou morrendo muitas pessoas. E o arraial teria
que ser destruído, pois afrontava a ordem social da região (as pessoas que
não iam pra lá eram marcadas pra morrer, serem assassinadas, como também os
homens públicos conhecidos e os fazendeiros e suas famílias.
Qual a real intenção da formação desse movimento em pau de colher?
Marcos Damasceno-foi
aquilo que respondi no seu 2º questionamento.
Em seu livro você cita vários nomes que participaram dessa guerra. Mas me
chamou a atenção a pessoa de seu "Janjão". Por que ele foi atacado pelos
Caceteiros?
Marcos Damasceno-na estratégia de ocupação das terras das fazendas
piauienses, o movimento teria que assassinar 05 (cinco) homens influentes na
região, que podiam botar o plano do "Quinzeiro" por água abaixo: João
Rodrigues de Sousa (Janjão), meu tio, que era o subdelegado, representante
da lei, João Rodrigues Damasceno, meu Bisavô, Líder Político, e os três
fazendeiros: Antônio Martins, Mariano Rodrigues de Sousa (Meu Tio) e
Alexandre Oliveira (Meu Bisavô). E o Janjão, era o subdelegado na época. O
delegado era o major Toinho, que ficava em São Raimundo Nonato-PI, na sede
do município. Era assim a organização da polícia, e da justiça, na ocasião.
Pra todos os efeitos, o Janjão representava a lei na região. E era o seu
representante mais próximo.
Como as autoridades locais da época reagiram com a chegada dos Caceteiros?
Marcos Damasceno-com
preocupação e indignação. Preocupação com a falta de segurança, e indignação
(prontidão) por que algo teria que ser feito. De início, criaram uma espécie
de cordão de isolamento, levando as pessoas da região para a casa do Júlio
dias (Localidade Riachinho) e do Alexandre Oliveira (Localidade Caldeirão),
meu Bisavô, como forma de protegê-las, como também, de buscar a união.
Depois, buscaram conscientizar as outras pessoas, a irem para os refúgios
(um dos dois). Num terceiro momento, tentaram impedir as pessoas irem para o
movimento. Conseguiram em parte. E isso, é bom que se diga, da parte do
Estado do Piauí. A maioria do povo do arraial era da Bahia. E a última
atitude, foi colocar o Militão Martins (soldado corajoso e experiente) para
fazer um discurso cívico nas proximidades do arraial, para tentar mostrar às
pessoas, o erro de causa que estavam cometendo. Isso de certa forma
desmoralizou o mentor do arraial. E o povo passou a perceber o equívoco de
causa. Estava contra o próprio estado do Piauí. A partir daí, foi ficando
fácil destruir o arraial, os “Caceteiros” perderam o estímulo e passaram a
ficar do lado da polícia. Enfim, tenho convicção de que a reação das
autoridades foi a mais sensata para a época. Isso envolvendo a participação
de todos. Dos homens públicos da comunidade (João Damasceno e Júlio Dias),
do Janjão, do bispo dom Inocêncio, do major Toinho, do Prefeito Bitoso Silva
e do presidente Getúlio Vargas. Essencialmente, destruir o arraial com o
menor índice de pessoas mortas possível. Sem enfrentamento militar era
impossível a destruição do Arraial. E em guerra (militar) sempre morre
alguém.
Houve Sufocamento por parte da imprensa em relação ao Arraial do Pau de
Colher? E qual era a intenção?
Marcos Damasceno-não. Literalmente não existia imprensa local, na
época. Isso num raio de 500 km. E a imprensa nacional (que era a única que
existia) não deu atenção ao episódio. A dificuldade de comunicação era
enorme. Procurei nos acervos do governo federal e dos governos estaduais (do
Piauí e da Bahia), e não há nenhum registro sobre o arraial do pau de
colher. As notícias corriam a região, através das conversas entre as
pessoas. Mas não houve a intenção de sufocamento. Tanto, que o Getúlio
Vargas quis homenagear o Militão Martins (o principal responsável pela
estratégia que destruiu o arraial), e ao contatar o governo do Piauí, ele
não sabia nem onde ficava são Raimundo nonato-pi. Quanto mais o arraial. Pra
se ter uma noção de como era a época. Meus livros são os primeiros escritos
(com texto integral) do movimento arraial. E passei 11 anos escrevendo-os
(1998-2009) para fazer um registro justo, fiel aos fatos. E de certa forma,
não foi tão difícil pois ocorreu na minha terra, e envolvendo a minha
família e famílias conhecidas no meu meio social.
Por que esse movimento ganhou tão grande dimensão dentro de nossa região?
Marcos Damasceno-pela preocupação e indignação. Principalmente, pela
ousadia do "Quinzeiro", chefe do arraial, ao propor matar as autoridades da
região. E essa repercussão teve uma dimensão ainda maior, por se tratar de
homens públicos queridos e conhecidos na região. Isso foi o principal motivo
que agitou a todos. Antes, se buscava apenas impedir as pessoas de irem pra
lá, pro local do movimento. Mas depois dessa audácia, houve a decisão de
partirem pra destruição do Arraial.
E essa audácia, se confrontou com a formação moral e cívica do povo na
época. Era um povo bravo, corajoso, destemido, que não tinha covardia.
Lutava pela nossa terra com "unhas e dentes". Hoje, não sei se ainda existe
esse civismo e patriotismo por parte da maioria do povo regional.
Como se deu o fim desse movimento?
E o que restou do mesmo? Marcos Damasceno-depois do fracasso das primeiras
volantes policiais (ver no livro), o presidente Getúlio Vargas enviou em
janeiro de 1938, já no final do mês, uma volante policial de salvador-ba, na
época tida como de elite, a mais bem preparada do nordeste. O arraial já era
habitado por mais de 4000 (quatro mil) pessoas. Á noite, era visto de longe
pela clareira das velas, ajudado pelo relevo. O local é alto. Apenas em
janeiro de 1938, a volante policial de salvador-ba chegou ao local. Ao
chegar à área de concentração (Localidade Lagoa do Alegre-BA) a volante
policial foi recepcionada pela polícia do Piauí. O experiente Militão
Martins sugeriu algumas estratégias, que foram acatadas: convocar o vaqueiro
mais velho da região, como guia; trilhar sempre por fora da estrada; os
soldados teriam que usar sandálias “salga bunda” (uma alpercata de couro que
jogada areia nas costas, por isso tinha esse apelido), com o rastro ao
contrário, para que o inimigo (“Caceteiros”) pensasse que estavam indo no
sentido contrário. Necessitava, para derrotar os “Caceteiros”, uma
quantidade maior de policiais. Mesmo com poucas armas de fogo, os
“Caceteiros” eram mais adaptados à região (clima), conheciam melhor o local,
e tinham uma coragem em lutar incomum, fruto do fanatismo religioso, no
intuito de proteger o “mestre” Quinzeiro, que nunca lutou, apenas ficava
escondido quando o arraial era atacado. E muito bem protegido, para se
chegar até ele teria que passar por muita gente. Teria que matar,
literalmente, todos os “Caceteiros”. Quando chegou ao local do arraial,
guiada pelas próprias pessoas resistentes, montou uma estratégia infalível:
cercou toda a área do arraial. Eram 100 (cem) soldados. E muita estrutura. A
invasão começou, e foram 24 (vinte e quatro) horas de guerra. Morreu muita
gente. Apenas as crianças foram poupadas. O resto era matar ou morrer. Mas
no final, quando a volante dominou a guerra, abriu exceção também para as
mulheres saírem do terreno do conflito. Foram liberadas.
O "Quinzeiro", responsável por toda a formação do arraial, o mentor,
conseguiu sair vestido de mulher. No final, quando restavam poucas pessoas,
o resto tinha morrido, muitos “Caceteiros” e poucos policiais, houve a
rendição. Foram presos de imediato, depois liberados. Eram pessoas do lugar.
Arrependeram-se de tudo, e pediram uma nova oportunidade para reconstruírem
suas vidas na região. O Presidente Getúlio Vargas, sob a intercessão do
Bispo Dom Inocêncio, do Prefeito Bitoso Silva e de João Damasceno (seu
amigo), e das demais autoridades, concedeu esse direito de liberdade. O
arraial foi tocado fogo. E os outros 03 (três) líderes do movimento foram
assassinados. Quando o conflito terminou, a polícia do Pernambuco chegou ao
local como reforço policial, mas não havia mais necessidade.
A missão de destruir o arraial havia sido cumprida. As crianças que ficaram
órfãs, e que não tinham nenhum parente para ser o responsável por elas,
foram levadas para salvador-ba. Algumas colocadas em conventos, outras na
marinha, e algumas no exército. É o caso do Anísio, um dos mais importantes
brigadeiros da ditadura militar (1964-1985), que era uma dessas crianças.
Hoje o local é um deserto. E sofre uma desertificação no solo. É um limpo
enorme. Por perto, não mora ninguém. Se por acaso tiver esquecido de
perguntar algo que dar ênfase, pode contar.
Marcos Damasceno
- penso que a capacidade profissional, superando limites, mas com pensamento
de defender nossa terra, e tendo a opção de correr do desafio (poderia
inventar uma desculpa para não ir lá), da polícia de São Raimundo Nonato-PI,
é relevante destacar. Mesmo sem estrutura e com um efetivo pequeno (os
soldados Militão Martins e Carlos Santana) e o major Toinho, foi muito
determinante na destruição do arraial, como uma ação de ordem pública. A
qualidade superou todas as outras deficiências. E o soldado Militão Martins
denotou seu patriotismo ao desafiar o "Quinzeiro", dentro do próprio
arraial, com uma coragem singular, ao dizer: “Apareça Quinzeiro se tu for
homem. Aqui no Piauí tem lei”. Isso de certa forma desmoralizou o mentor do
Arraial. E o povo passou a perceber o equívoco de causa. Estava contra o
próprio estado do Piauí. Isso fruto do discurso cívico e heróico do Militão
Martins. A partir daí, foi ficando fácil destruir o Arraial, os “Caceteiros”
perderam o estímulo e passaram a ficar do lado da polícia. Militão Martins
concluiu dizendo: “viemos aqui ajudar vocês a se livrarem das garras desse
pilantra” (Quinzeiro). O próprio Getúlio Vargas, ao saber pela polícia de
salvador do feito do Militão Martins disse: "esse soldado do Piauí é
extraordinário". Isso é a grandeza da história da nossa terra, da nossa
gente.
Essa foi uma passagem trágica da nossa história. Uma página negra. De
injustiças, humilhações, ilusões, sofrimentos, mortes, perdas, e de muitos
equívocos de causas. Mas serviu de exemplo, de aprendizado, e de
amadurecimento, para que tenhamos definição realística das coisas daqui pra
frente.
Ângela, por fim, dizer da satisfação em ver alguém da nossa terra,
principalmente uma educadora, contemplar nossa história. Muitos acham que as
coisas boas e importantes são as dos outros. E as nossas não têm relevância.
Nossa história tem relevância nacional. Pra se ter uma idéia, Os brasileiros
mais biografados são na ordem: Lampião, padre Cícero e Luiz Gonzaga. Todos
nordestinos. Como diz Ariano Suassuna: "não precisamos do aval de nenhum
outro povo para sermos como somos (culturalmente), para expressarmos nossos
costumes". E não podemos jamais ter vergonha da nossa história. E ela tem
que ser escrita, falada, comentada sempre. No meio acadêmico, literário,
midiático, no dia das pessoas enfim. Não podemos ser um povo que não
aprendeu sobre seu passado, que não compreende o presente e que não imagina
seu futuro. E você Ângela, com sua monografia, seu estudo, contribui para o
direito de memória do povo da nossa terra.
“Não se sabe ao certo
onde tudo começou. Naquela época toda a imprensa foi calada. A gente da
região só sabia que estava acontecendo o Pau de colher porque eles já haviam
chegado a nossa região. Os sertanejos estavam muito envolvidos por aquele
beato. Mas se ouvia comentar que ele era do Ceará, sítio Caldeirão” (Dona
Vasti).
“As pessoas estavam tão
fanáticos por aquela comunidade que estava se formando, que acham que iriam
para o céu. Eles entregavam tudo pelas promessas feitas pelo beato de que
iriam viver no sítio do Caldeirão” (Dona Vasti).
“Na
verdade não há nenhuma relação. O que ocorre é que nossa história, na
maioria dos casos é escrita por historiadores de fora. E isso traz sempre
equívocos por não conhecerem o contexto social e histórico da região, e
acabam cometendo erros e publicando inverdades” (Marcos Damasceno).
“E bom que se diga que
nosso povo, historicamente, teve um notável sentimento de religiosidade.
Isso está muito bem enraizado pela nossa cultura. E traz também
fragilidades, como foi o caso do Arraial do Pau de colher que surge como um
mercado da fé. Uma religião de fachada. E a ilusão tomou conta da região
(parte da região da Bahia e do Piauí), por encontra certa ingenuidade por
parte de muitas pessoas. (Marcos Damasceno).
Colaboradores
Escritor:
Marcos Damasceno
Professora:
Vasti Oliveira (Filha daquela época)
Acadêmica:
Angela Paula Mota
Ribeiro de Castro
|